A
relação que a sociedade estabelece com aqueles que não possuem oportunidades de
se manter no mercador possui um traço negativo, aos pertencentes a este quadro,
cheios de preconceitos e desvalorização. Por conta disso, eles buscam viver
isolados socialmente, mesmo que esta classe dita por pobre forme um conjunto;
pois diferente dos outros grupos sociais, ser pobre se torna tão estigmatizado
que tal classe se estrutura de maneira heterogênea, contribuindo ainda mais
para o isolamento deste. Porém, com a estigmatização, esta heterogeneidade
acaba se escondendo da visão geral da população. O individuo pertencente ao
grupo de pobres não possui necessariamente sua identidade para o restante da
população, para estes outros, ele só é um simples pobre.
O documentário Leva, de 2011, busca
romper com esta homogeneidade falsa, mostrando, por alguns exemplos, que cada
sujeito ali, possui uma história de vida, por trás de qualquer estigma, que o
possibilitou à entrada neste processo que é a pobreza. O bilhete de inserção a
este meio é a desqualificação social. O que notamos desde o início do
documentário é que eles estão e tais condições, pois já possuíam alguma
fragilidade social, e após o acontecer dos atos, foram se debilitando cada vez
mais, até ter que necessitar de auxilio. Como mostra o filme, muitos vieram de
outras cidades, e não conseguiram se estabelecer em São Paulo. Vemos que muitos
deles além da necessidade a assistência, porém não cedem a ela, não estão
inseridos no mercado de trabalho diretamente. Alguns trabalham no próprio
prédio, ganhando o suficiente para sustentar as suas necessidades básicas.
Outros relatam que o seu dinheiro, o seu bolso, não é o mais importante, e sim,
a comunidade em si, na qual participam, tem um grau de importância maior.
Logo, desqualificados socialmente,
eles estabelecem uma relação com o restante da população de modo específica.
Esta relação é diferente daqueles que não se cede ao auxilio assistencial ou
daqueles que se encontram na marginalidade. O sociólogo francês Serge Paugam,
estabelece cinco pontos desta relação, sendo o primeiro a estigmatização. Este
estigma é tão profundo, que não está somente como o outro nos ver, mas sim como
nos vemos ao nos tornarmos assistidos. Podemos notar no documentário que os
entrevistados, por não serem totalmente assistidos, possuem uma forma de
relação com a vida bastante singular, pois o meio em que vivem, o pertencer a
uma comunidade, tornou-se um fato estruturante nas suas relações. Eles não se
isolam, e sim, se juntam. No relato da Maria
Elizete , na qual ela diz: “meu objetivo
é a moradia né, e de todos que estão aqui dentro. O objetivo é esse, a nossa
luta é essa. Eu consegui, mas tem meu próximo que não....”, podemos ver a
dissolução do individualismo presente em outras classes sociais. A sensação é
que “O outro faz parte de mim”, pois pertencemos a um mesmo conjunto. Eles não
ficam passivos esperando a assistência, e sim, lutam pelos direitos deles, e
caso alguma possível assistência surja, será bem vinda. Podemos notar, contudo,
que esta classe social, não se encontra excluída, mas possuem capacidades
suficientes de reação a forças sociais circundantes.
Se analisarmos a desqualificação
social como uma interdependência dos pobres ao restante da sociedade, veremos
que, os indivíduos que se encontram envolvidos em movimentos sociais de teor
comunitário, não aparenta possuir esta dependência. Chegando muitas vezes, e
ter a sensação de que tais organizações são superiores, e que eles possuem capacidades
de serem exemplos para o restante da sociedade como forma de se estruturar,
vemos esta ideia na fala de um dos entrevistados quando ele diz: “Porque não colocar o trabalhador próximo do
seu local de trabalho? Não, a maioria trabalha aqui na região central. Eu, por
exemplo, não dependo de transporte coletivo. É maravilhoso. Posso vim andando
até meu local de trabalho. Que dizer, isso poderia ser uma coisa que poderia
alcançar uma quantidade muito maior de pessoas”. E mais a frente fala:
Eles acham que quando você entra no
prédio você está desalojando as pessoas que estão lá dentro, não, o principal
motivação é política. É conscientizar os políticos de que existe um imóvel
abandonado, não existe ninguém morando ali... Então é uma maneira de conscientizar
os políticos de que existe uma população de baixa renda que precisa de moradia,
né, que quer viver com dignidade e que há meios de se fazer isso...
Contudo, como já foi dito, a
necessidade de assistência é visível, porém, vemos uma resistência nos
participantes dos movimentos sociais em esperarem os auxílios vindos do estado.
Sabemos que essas assistências nem sempre vem com num prazo de tempo
confortável a todos. Por isso, podemos classificar esta força divergente a esta
espera como positiva, pois para eles, estão estruturados e “bem de vida”
ocupados num prédio, ou, além disso, pertencente a um grupo social. Entretanto,
mesmo seguindo a força do movimento, eles esperam que consigam uma moradia
própria fora dos prédios ocupados. Seria então, a comunidade uma bengala que
sustenta e estagna o processo de desqualificação social rumo à marginalidade
excluída da sociedade. Os discursos deles é que não pagam os impostos não
porque não querer, mas porque não tem oportunidade. Porém, esta oportunidade
que lutam, não é bem vista por todos lá, muitos preferem a vida que levam na
ocupação do que as que tinham antes dela, como diz Elizete: “Agora, se me verem aqui, me verem aqui,
morando aqui, “ah, essa daí é uma desocupada, num sei o quê, num sei o
quê...não sabe eles que eu aqui no movimento sou mais feliz do que quando eu
tinha que morava lá no prédio pagando meu aluguem e tudo. Aqui eu sou muito
mais feliz, sabia?!”
Quem tiver interesse em assistir a este maravilhoso documentário da Juliana Vicente e Luiza Marques, segue o vídeo do Youtube abaixo.
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