domingo, 3 de maio de 2015

Comentários sobre Filme - Leva (Documentário)

           A relação que a sociedade estabelece com aqueles que não possuem oportunidades de se manter no mercador possui um traço negativo, aos pertencentes a este quadro, cheios de preconceitos e desvalorização. Por conta disso, eles buscam viver isolados socialmente, mesmo que esta classe dita por pobre forme um conjunto; pois diferente dos outros grupos sociais, ser pobre se torna tão estigmatizado que tal classe se estrutura de maneira heterogênea, contribuindo ainda mais para o isolamento deste. Porém, com a estigmatização, esta heterogeneidade acaba se escondendo da visão geral da população. O individuo pertencente ao grupo de pobres não possui necessariamente sua identidade para o restante da população, para estes outros, ele só é um simples pobre.
           O documentário Leva, de 2011, busca romper com esta homogeneidade falsa, mostrando, por alguns exemplos, que cada sujeito ali, possui uma história de vida, por trás de qualquer estigma, que o possibilitou à entrada neste processo que é a pobreza. O bilhete de inserção a este meio é a desqualificação social. O que notamos desde o início do documentário é que eles estão e tais condições, pois já possuíam alguma fragilidade social, e após o acontecer dos atos, foram se debilitando cada vez mais, até ter que necessitar de auxilio. Como mostra o filme, muitos vieram de outras cidades, e não conseguiram se estabelecer em São Paulo. Vemos que muitos deles além da necessidade a assistência, porém não cedem a ela, não estão inseridos no mercado de trabalho diretamente. Alguns trabalham no próprio prédio, ganhando o suficiente para sustentar as suas necessidades básicas. Outros relatam que o seu dinheiro, o seu bolso, não é o mais importante, e sim, a comunidade em si, na qual participam, tem um grau de importância maior.
           Logo, desqualificados socialmente, eles estabelecem uma relação com o restante da população de modo específica. Esta relação é diferente daqueles que não se cede ao auxilio assistencial ou daqueles que se encontram na marginalidade. O sociólogo francês Serge Paugam, estabelece cinco pontos desta relação, sendo o primeiro a estigmatização. Este estigma é tão profundo, que não está somente como o outro nos ver, mas sim como nos vemos ao nos tornarmos assistidos. Podemos notar no documentário que os entrevistados, por não serem totalmente assistidos, possuem uma forma de relação com a vida bastante singular, pois o meio em que vivem, o pertencer a uma comunidade, tornou-se um fato estruturante nas suas relações. Eles não se isolam, e sim, se juntam. No relato da  Maria Elizete , na qual ela diz: “meu objetivo é a moradia né, e de todos que estão aqui dentro. O objetivo é esse, a nossa luta é essa. Eu consegui, mas tem meu próximo que não....”, podemos ver a dissolução do individualismo presente em outras classes sociais. A sensação é que “O outro faz parte de mim”, pois pertencemos a um mesmo conjunto. Eles não ficam passivos esperando a assistência, e sim, lutam pelos direitos deles, e caso alguma possível assistência surja, será bem vinda. Podemos notar, contudo, que esta classe social, não se encontra excluída, mas possuem capacidades suficientes de reação a forças sociais circundantes. 


          Se analisarmos a desqualificação social como uma interdependência dos pobres ao restante da sociedade, veremos que, os indivíduos que se encontram envolvidos em movimentos sociais de teor comunitário, não aparenta possuir esta dependência. Chegando muitas vezes, e ter a sensação de que tais organizações são superiores, e que eles possuem capacidades de serem exemplos para o restante da sociedade como forma de se estruturar, vemos esta ideia na fala de um dos entrevistados quando ele diz: “Porque não colocar o trabalhador próximo do seu local de trabalho? Não, a maioria trabalha aqui na região central. Eu, por exemplo, não dependo de transporte coletivo. É maravilhoso. Posso vim andando até meu local de trabalho. Que dizer, isso poderia ser uma coisa que poderia alcançar uma quantidade muito maior de pessoas”. E mais a frente fala:
Eles acham que quando você entra no prédio você está desalojando as pessoas que estão lá dentro, não, o principal motivação é política. É conscientizar os políticos de que existe um imóvel abandonado, não existe ninguém morando ali... Então é uma maneira de conscientizar os políticos de que existe uma população de baixa renda que precisa de moradia, né, que quer viver com dignidade e que há meios de se fazer isso...

           Contudo, como já foi dito, a necessidade de assistência é visível, porém, vemos uma resistência nos participantes dos movimentos sociais em esperarem os auxílios vindos do estado. Sabemos que essas assistências nem sempre vem com num prazo de tempo confortável a todos. Por isso, podemos classificar esta força divergente a esta espera como positiva, pois para eles, estão estruturados e “bem de vida” ocupados num prédio, ou, além disso, pertencente a um grupo social. Entretanto, mesmo seguindo a força do movimento, eles esperam que consigam uma moradia própria fora dos prédios ocupados. Seria então, a comunidade uma bengala que sustenta e estagna o processo de desqualificação social rumo à marginalidade excluída da sociedade. Os discursos deles é que não pagam os impostos não porque não querer, mas porque não tem oportunidade. Porém, esta oportunidade que lutam, não é bem vista por todos lá, muitos preferem a vida que levam na ocupação do que as que tinham antes dela, como diz Elizete: “Agora, se me verem aqui, me verem aqui, morando aqui, “ah, essa daí é uma desocupada, num sei o quê, num sei o quê...não sabe eles que eu aqui no movimento sou mais feliz do que quando eu tinha que morava lá no prédio pagando meu aluguem e tudo. Aqui eu sou muito mais feliz, sabia?!”

Quem tiver interesse em assistir a este maravilhoso documentário da Juliana Vicente e Luiza Marques, segue o vídeo do Youtube abaixo. 

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